(Mesac Silveira)
A palavra perambular tem origem no latim perambulare.
Perambular significa andar de forma desordenada ou sem rumo,
vaguear ou cruzar.
Por exemplo, "Muitos cães vadios perambulam pelas ruas da cidade".
Este livro nasceu de uma indignação e de um provável equívoco. Mas também de um aceno de amor.
Acabei de mudar o nome do livro para Perambulando, em vez de Perambulagens — e mudei de novo para Perambulagens três dias depois.
(até o nome do livro perambula)
Foi Nietzche que disse: “o homem chega à sua maturidade quando encara a vida com a mesma seriedade com que uma criança encara uma brincadeira”
26 de setembro de 2024
Pedi para estudantes de Metodologias de Pesquisa em Artes Cênicas nesta aula inaugural da disciplina que escrevessem uma carta contando dos seus planos de pesquisa. Não uma carta para mim (também poderia ser), mas uma carta para quem quisessem. Podia ser para uma pessoa de confiança, uma grande amiga, até para alguém de uma relação distante e tortuosa…, um pai, por exemplo, que não acreditava muito na sua filha, na sua opção de curso, na sua maneira de viver a vida. Mas dei ênfase para que fosse uma carta verdadeira, mesmo que as ideias e planos ainda estivessem confusas e instáveis.
Agora estão ali em silêncio escrevendo enquanto cai a chuva lá fora e uma brisa percorre a sala 64 de um prédio em que nunca havia dado aula antes. Tomei muita chuva esta manhã, as pernas da minha calça ainda estão bem molhadas, não dá pra ver porque é preta. A minha cachorra labradora Luna dorme em casa, suponho, em cima da cama depois de tanta andança na semana retrasada. Se eu fosse escrever hoje um artigo de artes cênicas começaria assim com este sono da Luna.
Possivelmente ela esteja até sonhando, se agitando, mexendo as patas. A Luna sonha, terá ela então inconsciente? Sonhará a Luna colorido ou preto e branco? Colorido, certamente. E nos seus sonhos, lembrará ela quando ainda mamava e era cuidada por sua mãe? Talvez. Sonhará a Luna comigo? Puxa, seria ótimo! Com a viagem que fizemos para Bolívia de moto? Com os vulcões altíssimos perto da fronteira com Chile no dia que ela conheceu aquele bicho estranho que são as lhamas? Ou com a neve que caia lentamente cobrindo o topo das montanhas?
No início eu não sabia, mas agora eu sei, Luna, esta carta é pra você.
DeSorqUestRa de quase s i l ê n c i o s
“Os telegramas vieram no vento.
Quanto sertão, quanta renúncia atravessaram!
Todo homem sozinho devia fazer uma canoa
e remar para onde os telegramas estão chamando.”
(Notícias. Carlos Drummond de Andrade)
[isto são notas fragmentarias e contraditórias, apenas um esboço que contorna o meu pensamento sem penetrar nele. Permanecem à margem, ambíguos, como que vagando silenciosas e meditativas. Fortuitas, avulsas, aleatórias; notas que perambulam e que podem, inclusive, nem acontecer. Algo como um não acontecimento ou, talvez, um quase acontecimento ou um desacontecimento rasurado]
POR UM TÍTULO
Mexendo, trabalhando no meu livro. Praticamente o “grosso” já está feito. Bastam retoques, polimentos, ou ao contrário: deixá-lo assim com arestas, material bruto. Mas é justamente aqui que a mágica acontece, ou não. Hei de estar atento, ou, ao contrário: distraído.
O livro, deixe-mo-lo descansar um tempo.
Porém não consigo, volto a ele.
Escrever um livro é constantemente e recorrentemente ir se escrevendo a si mesmo, com tudo o que isso acarreta de alegrias e angústias.
É também na relação entre texto e título que se dá o jogo. PERAMBULAGENS POR UM QUASE TEATRO, não seria melhor?
Não, terei que pensar e sentir melhor esse título.
PERAMBULAGENS IMPOSSÍVEIS.
Assim soa melhor, mais grave, elegante... Mas também não me agrada totalmente.
PERAMBULAGENS INSUSTENTÁVEIS? APARENTES? INSENSATAS?... AZUIS?
Está ainda difícil achar (sentir) o tom do livro que ressoe completamente no título. Talvez ele seja atonal.
Gostaria mesmo que este livro fosse inteligente, complexo, contraditório, sensato e poético. Acho que fracassarei.
Encontrei o título: PERAMBULANDO
[Retorno a: PERAMBULAGENS. E agora como o acréscimo: Um Encarte]
CRIANÇA BRINCANDO NO VENTO
Segunda-feira na aula de Práticas do Jogador Performer conversávamos sobre nossos futuros encontros teatrais no Hospital Psiquiátrico São Pedro. Falávamos sobre as formas diversas de estar e sentir o mundo. Pensávamos sobre o tempo. Essa ideia que parece tão comum e generalizada não é bem assim.
Tribos nômades saarauis sentem o tempo de maneira distinta, a aridez do deserto e suas imensas distâncias se imiscuem e se hibridizam nas suas noções de tempo; o tempo nas comunidades andinas também as perfaz pelas altitudes extremas onde o passado está a frente e não atrás.
O povo originário australiano tem uma forma muito particular de pensar o tempo e vivê-lo, sente-o em relação ao caminho e cantos ancestrais…; nós mesmos quando, por exemplo, apaixonados, esperamos o ser amado para um encontro, o tempo entra em vertigem, se altera, entra em estado de desejo.
O tempo, o que chamamos de tempo, se dilata, se expande, se contrai, se dobra e desdobra dependendo de processos culturais e subjetivos, da paisagem e dos sentimentos
— da mensagem de alguém que não chega...
Talvez um dos aspectos mais desafiadores da neurodiversidade seja o de encontrar parceiros de mensagens, companhias para brincarmos juntos no tempo, com o tempo…
Nem sei bem por que estou contando isso aqui, talvez porque acabo de ver ali na calçada uma criança feliz andando contra o vento com os braços estendidos.
A FILOSOFIA
Existe um segredo inexpugnável em algum lugar da Filosofia. É um segredo que quando revelado, não apenas deixa de ser um segredo, mas deixa de ser Filosofia. Assim, ficamos dando voltas em torno deste segredo, nos aproximamos, o tateamos, nos deixamos seduzir, inclusive copulamos com ele, mas sem possuí-lo jamais - sem nunca conhecê-lo. (Hoje, por um instante, me pareceu que sussurravam que esse segredo era o Teatro, mas logo esqueci).
A AULA
É novamente Barthes quem me ajuda na preparação da aula inaugural da próxima quinta-feira,
Metodologias de Pesquisa em Artes Cênicas.
Roland Barthes escreve sobre a preparação do romance. Eu falo sobre o projeto de TCC:
Será que faremos realmente um projeto de Trabalho de Conclusão de Curso? Respondamos apenas isto: agiremos como se fôssemos fazer um -> vamos nos instalar nesse como se. Esta disciplina poderia chamar se Como se.
HISTÓRIAS À BEIRA DO CAMINHO:
a benção e a maldição do nômade ou no deserto com Roland Barthes
METODOLOGIAS: histórias contadas à beira do caminho.
“Desde as margens, desde as cercanias, desde as fronteiras.
Desde um oásis extraterritorial, aonde cabem todas as línguas, todas as pátrias e todos o sangues.”
(Fernando Iwasaki Cauiti, sobre Prochazka)
“Sou como aqueles que voltando de uma longuíssima viagem (para fora de tudo, da terra, do mundo, dos homens e das suas línguas), tentam manter a posteriori um diário de bordo, com os instrumentos esquecidos, fragmentários, rudimentares, de uma língua e uma escrita pré-históricas. Compreender o que aconteceu e explicá-lo com pedras, pedaços de madeira, gestos de surdo-mudo..., um tatear. E eles vão reconstituir-se com isso. Se soubessem, teriam medo e sequer tentariam.”
(Jacques Derrida)
"Caminante, no hay camino, se hace camino al andar"
(Antonio Machado)
Pesquisadora, não existe metodologia, se cria metodologia ao pesquisar
EXTRAVIOS PARA UMA METODOLOGIA INVENTADA
Você a inventa
A cria
A descobre
A assume
A nomeia
Ela te assombra
Ela te fascina
Está à espreita
Exerce sobre ti uma atração inapelável.
Não é uma opção
Nem escolha
Não a escolhemos, somos requisitada por ela
Porém é uma busca - é a própria busca.
A busca de um núcleo íntimo que não acaba de aflorar nunca.
Somente o roçamos, tateando. Como um gesto, um aceno. Algo que nos escapa.
Se metodologia é a história do caminho (ou histórias contadas - ou cantadas - à beira do caminho)…, não somente o caminho enquanto trajeto definido se desvaneceu, mas a própria origem e o destino. Nosso caminho é deriva. Ou, como chama o filósofo argelino Jacques Derrida: destinerrância.
O caminho, o caminhante e o próprio movimento se desvaneceu.
Um assombramento.
Estar atento. Encostar o ouvido e sentir a palpitação, a respiração daquilo que te assombra.
Os sussurros (ou gemidos) quase inaudíveis dos fantasmas.
Pesquisar na atualidade é já contar com a falta, é escrever já decepado. Falhado. “Lugar de falha”, na expressão do poeta e performer mineiro Ricardo Aleixo.
Os desvios / as encruzilhadas / as ruelas e becos.
O caminho dos indecisos.
ÍNFIMAS TRAIÇÕES, MÍNIMAS INFIDELIDADES:
MÉTODOS DE PESQUISA EM ARTES CÊNICAS
Agora não tem jeito, terei que lançar um livro de metodologia de pesquisa em artes cênicas antes do segundo volume daquele outro que lancei em 2018.
Quando empreendemos uma pesquisa inventamos uma metodologia e uma escrita. Não há divisão entres pesquisa, método, metodologia e escrita. Não há uma opção a priori por um tipo de escrita ou método. A pesquisa nos constrange a uma escrita. Ou dito de outra forma, o tipo de escrita será inevitável. Isso porque a inventamos no ato da investigação. Porque a investigação é ela um ato de inventarmos anjos mesmos enquanto seres escreventes, ou escrevinhadores. Há um amálgama entre a escritura é quem a escreve, assim como há um amálgama entre sujeito e objeto da pesquisa. Portanto um texto resultado de pesquisa não pode ser subordinado a modelos externos alheios à ele. Um blog, um diário de bordo, um hipertexto, uma escrita fragmentada ou polifônica, um texto dramatúrgico, ou um texto rizomático (como o antiédipo) não são opções mas são consubstanciais aos próprio ato do relatório da pesquisa, ou da própria pesquisa. Não escrevemos sobre algo mas subjugados por este algo, tomados por ele, possuídos...
Quando tentamos limitar uma escrita investigativa a um formato externo estamos cometendo um crime hediondo de destruir a vida do texto. Quando queremos submeter esse texto a um formato, mesmo que seja o formato ou gênero ensaístico, o estamos aniquilando, seja em nome de submissão à normas técnicas ou ao rigor científico.
PROTEU
Personagem mítico do mundo grego que modificava continuamente a própria identidade e forma para desorientar seus interlocutores.
Por uma metodologia proteiforme?
ALICE E OS PÁSSAROS
Todos os dias ela escreve escreve escreve...
Está ensaiando uma maneira de voar.
ROTEIRO PARA UMA EMBOLIA PULMONAR
27 de setembro de 2020
Eita. São três da manhã. Estou mal.
Ontem já tive uma dor mais pra abdominal quando respirava fundo. Já na cama, me senti febril e cabeça pesada. Tomei um comprimido de dipirona. Dormi. Mas deitado do lado esquerdo, a dor era contínua. Acordei com uma indisposição difusa mas desesperadora. Leve náusea. Levanto, a camiseta e o lençol molhados de suor, vou ao banheiro. Não tenho diarreia. Não é coisa digestiva. É outra coisa.
Agora, sem febre, sem náusea, mas levemente indisposto, sentado na beira da cama, me sinto quase normal, a não ser pela fisgada do lado esquerdo quando respiro fundo. Há também uma dor na perna direita, é estranha, mas não parece associada com o resto.
Amanhã cedo (o melhor seria, de tarde) irei ao médico. Procuro pensar em todas as decisões práticas que terei de tomar se acaso tenha de internar-me. Já mandei mensagem pra cuidadora da Luna.
28 de setembro de 2020
Estou no hospital. Na área restrita para pacientes com suspeita de coronavírus, do Pavilhão Pereira Filho, da Santa Casa
Faço uns vídeos e fotos, e gravo alguns áudios.
Está demorando o atendimento. Um misto de arrependimento de ter vindo e a certeza que não tinha outra saída. Preciso confirmar se tenho COVID para poder decidir sobre um isolamento mais estrito. Decidir sobre a mãe e Luna. Avisar a Sandra.
Fiz o teste. O resultado sai em até 48 horas.
Já levei a Luna e comprei os remédios.
Familiares próximos avisados.
Claro, pode que não seja COVID. Acho que existe essa possibilidade.]
29 de setembro de 2020
MADRUGADA.
Seria talvez estes os dias em que a minha escrita deslancharia. Porém não está sendo assim. O filme reina soberano neste período da minha vida. Ontem fiz alguns registros no hospital e no caminho de volta pra casa. Chegando em casa, peguei a Luna e a levei pra cuidadora dela. As ruas e suas cores me pareceram diferente, mais brilhantes, mais vivas. Era como se eu celebrasse algo. Não sei bem o quê. Sim, estava por primeira vez me afastando de casa em seis meses e meio. Mas não era só isso. Havia em mim um gozo de olhar pra coisas que tinha que ver com a possibilidade de não ter quem sabe muitas outras oportunidades. Escolho o trajeto pela Duque. O viaduto sobre a Borges (parei e filmei a avenida lá em baixo, ao longe, um morro), a cúpula da Matriz (também a filmei numa tomada longa), a praça em frente da mesma Igreja ainda em reforma (parece que nunca acabam a reforma desta praça)... e pensava na minha curta, mas intensa história com esta cidade, com este bairro.
E agora de madrugada, sem maiores incômodos que um leve na perna direita e uma sensação algo febril, sei que me lanço, mesmo sem ainda o resultado do teste, numa das fases mais aventurosas da minha vida. Mas não tenho vontade de escrever mais que isso.
30 de setembro de 2020
O Lipe (meu sobrinho) me pergunta como estou: “Oiii querido. Tudo bem. O cansaço e a dor na perna. No mais, quase normal. Tomando dipirona.
Amanhã deve sair o resultado, então, conforme falei com sua mãe ontem, vemos a questão da sua vó.”
Quando vi e ouvi antes de ontem aquele pessoal lá no ala do COVID do hospital pensei: com essa gente estaria liberado uma festinha. Esse pensamento meio mórbido me divertiu. Hoje consigo associar aquele pensamento a algo que senti ao ler A montanha mágica, de Thomas Mann. Algo como o baile dos malditos.
Para alguém como eu que estava quase que radicalmente confinado, tomando todos os cuidados, foi um tipo de tapa na cara estar ali naquela ala infernal.
Acabei de ter o resultado do teste COVID: negativo!!]
CIORAN
Foi ali naquela pequena varanda recoberta de Hera, em Andorra La Vella, que eu lia os livros do filósofo romeno Emil Cioran no final do verão de 1996. Eu o lia na edição espanhola de Tusquets com suas belíssimas capas de ouro queimado. Tinha comprado toda a obra do filósofo romeno. O rio Envalira corria entre as pedras. Já havia no ar um presságio de outono.
Foi nesse cenário e nessa atmosfera que eu a conheci. A escrita de Cioran? Ela entrou na minha vida como o rio, avassaladora, carregando tudo consigo. E quando ela se foi - também como o rio que infinitamente se vai? assim também a escrita parte? - e não restou pedra sobre pedra, foi com Cioran que os destroços de mim construíram uma precária jangada e partiram.
NOVA LÍNGUA
Se as metodologias de pesquisa em artes cênicas as inventamos ao pesquisar…
inventamos também aí pensamentos, sentires, corpos, tempos, espaços e movimentos. Transcriamos, como poderia afirmar Haroldo de Campos, a nós mesmos, nos traduzindo, inventando uma nova língua.
Uma subjetividade perambulante pelas, (como diz Jacques Derida), “destinerrâncias”.
NÃO ESQUECER DE TRAZER QUANDO DECIDIR PESQUISAR:
1. O semblante afogueado de prazer.
2. As maçãs do rosto, lívidas, recobertas com o brilho de uma leve película de suor.
3. Os lábios entumecidos…, quentes, esboçando um sorriso.
4. O perfume!… Melhor, o cheiro! Aquele cheiro que exala os corpos em dança, num ensaio ritmado de fundição: cadência incandescente do metal.
(E, principalmente, as pupilas em transe, assombradas).
Oiii. Acabei de escrever no meu diário:
Leio em El mal de Montano, de Enrique Vila-Matas, que
'Ricardo Piglia... dice que... un
escritor escribe para saber qué es la literatura."
E me dá vontade escrever no grupo de WhatsApp da disciplina de Metodologias de pesquisa em artes cênicas que um Trabalho de Conclusão de Curso se escreve para saber o que é um Trabalho de Conclusão de Curso. Ou seja, o inventamos enquanto o escrevemos. Mas não vou escrever lá; envio só pra vc.
ESCRITAS ERRANTES
Obrigado, Claudia. Teus convites me arrojam na escrita
E talvez o mais verdadeiro
Me arremessam aquém e além dela
Me arremessam num lugar que é uma espécie de margem
De borda
De limiar
Me faz lembrar (ai! Esse lembrar...)
De Exú
De Iansã
De Ártemis
E das mulheres dos lupanares dos portos do mar egeu.
Também me encho de memórias imaginárias dos seres errantes do deserto.
Tentei escrever sobre metodologias errantes
E vi que não podia
O convite foi carinhoso
Mas não pude honrá-lo
Preferi o silêncio
Talvez só um sussurro
O sussurro do verbo
E o verbo se fez carne
Uma carne sussurrante
Incrível como esses convites dela me arrebatam
Me arrojam na escrita
E na sua impossibilidade
Me lembro do êxtase da glossolalia
Essa fala não fala
Essa linguagem não linguagem
Praticada pelas mulheres dos lupanares
Dos antigos portos dos mares norte africanos
Fantasmas de linguagem
Que já me sussurraram em outro poema
Hoje eu aguço o ouvido para novamente
essas línguas de fogo e mel
Me aquieto e aguço meus ouvidos
Elas talvez me sussurrem
Ou talvez
Continuem em silêncio
Rumo a El Smara
As vozes de areia
Silenciadas no deserto
Vestígios dos sussurros
De antigamente
Das mulheres
Homens
Crianças
E camelos
Em
Quietas
Caravanas
Longínquas
QUANDO NUMA PEQUENA LIVRARIA DE BAIRRO ILUMINADA POR UMA LUZ AMARELA... -
OU, DEAMBULAGENS NA IMPOSSIBILIDADE DE UM ARTIGO DE METODOLOGIA DE PESQUISA
RESUMO
Acho que esse texto é um daqueles casos que não comporta um resumo; que não sai com ele a passear às três da tarde num domingo de sol, nem sussurra-lhe ao ouvido palavras ao cair da noite. Não, esse texto não se presta a um resumo; diria mesmo, que não suporta um resumo; que por sua própria incompletude e voo, devaneio e cor, desconhece o que poderia ser-lhe um resumo. Peço, portanto, sinceras desculpas por não poder apresentá-lo.
PALAVRAS-CHAVE
palavras; chave; não; abrem; poemas
[Os últimos retoques neste texto os faço na Padaria Armazém 47, na Rua da República, 47, Cidade Baixa, Porto Alegre, numa manhã e hora do almoço bastante nubladas do dia 02 de junho de 2019, enquanto ouço uma playlist com diversas canções ultra-românticas do Roberto Carlos da década de 1970. Na sequência, as músicas se derramam dos meus fones de ouvido: Detalhes, Como Dois e Dois, De Tanto Amor, Amada Amante, Como vai você, Por amor, À Distância, Agora Eu Sei, Atitudes, Proposta, O Moço Velho, Palavras, O Portão, Jogo de Damas, Eu Daria Minha Vida, O Show Já Terminou, Custe o que Custar, Eu Disse Adeus, Olha, Os Seus Botões, Pelo Avesso, Você me Minha Vida, Um Jeito Estúpido de Te Amar, Nosso Amor, Falando Sério, Cavalgada, Outra Vez, Café da Manhã, Abandono, Esta Tarde Vi Llover, Desabafo, Costumes, As Canções Que Você Fez Pra Mim, Un gato azul.]
01/06/19
06h40: Talvez o melhor mesmo tivesse sido eu ter recusado o convite da Claudia Zanatta para escrever o artigo (mesmo “ensaístico”) com uma desculpa qualquer. Agora está dificílimo me livrar dessa obsessão de escrever, mas também de uma certa impossibilidade.
Acordei há uma hora e ainda na cama fiquei em dando voltas em torno de um novo título para o artigo. Minha cabeça dava voltas e mais voltas até que tive que pular da cama e pegar o laptop e escrever estas linhas enquanto ouvia uma gravação antiga de Carlos Gardel.
Minha playlist aleatória avança tocando Calle trece, Fito Paes... e me lembro de ter pensado, minutos antes de levantar, quando ainda não escrevia, em dois novos títulos para o artigo. O primeiro era:
“ESCREVO PARA SABER O QUE EU ESCREVERIA SE ESCREVESSE ESSE ARTIGO”.
Depois pensei outro:
“DEAMBULAGENS EM TORNO DA IMPOSSIBILIDADE DE ESCREVER ESTE ARTIGO”
Este segundo título me pareceu mais acertado; um título que dava mais conta do texto que supostamente viria a seguir. Sim, “DEAMBULAGENS EM TORNO DA IMPOSSIBILIDADE DE ESCREVER ESTE ARTIGO”, me pareceu um título muito apropriado. Foi ele que me levou a pular da cama, pegar o notebook, e começar a escrever.
Eu havia descartado outros títulos, na linha: “PESQUISAS EM ARTES CÊNICAS: POR UMA METODOLOGIA EM TRÂNSITO”, ou “PESQUISAS EM ARTES CÊNICAS: POR UMA METODOLOGIA EM DEVANEIO” “...À DERIVA”, “...NÔMADE”, “DEVANEANTE”, “...ERRADIA”, “...ANDARILHA”... “...PIRATA”, “...FANTASMA”. Estes títulos eram bem bonitinhos e me tentavam, me tentam. Passam, em verdade, uma ideia quase perfeita do meu empenho aqui. Expressam noções queridas minhas e que podem estar espalhadas pelo artigo, mas não devem, eu acho, aparecer no título. Passam, repito, uma ideia quase perfeita, uma ideia que cheira a um método. O problema está neste “perfeita”. São títulos perfeitos demais, que encerram noções (conceitos?) bastante “redondinhas”. Ou seja, me parecem títulos que, eles mesmos, não estão à deriva, nem em devaneio; não comportam o extravio nem o fantasmal, ao contrário, parece que se cristalizam numa ideia.
Outra possibilidade seria pensar num título em que aparecesse aquilo que chamarei aqui de expressões-devaneios (geografias íntimas, cartografias errantes, territórios existenciais, atlas oníricos, “destinerrâncias” - esta, do Jacques Derrida...), mas aí que está..., cada vez tenho mais resistência - uma verdadeira limitação, uma impossibilidade! (uma birra?) - em apresentar de forma explícita e racional as ideias (?) que me perpassam e que, digamos, subjazem (me assombram, me embasbacam) na minha escrita “acadêmica”.
Portanto, talvez seria melhor deixar aquele título mesmo que eu havia pensado no dia 30/05/19: “ESCRITAS EM TRÂNSITO: deambulagens por uma escrita ainda inexistente”. Mas até este título parece que já não me serve, a despeito da expressão “ainda inexistente”, que tange uma corda que, me parece, está muito perto de voar.
Eu havia descartado outros títulos, na linha: “PESQUISAS EM ARTES CÊNICAS: POR UMA METODOLOGIA EM TRÂNSITO”, ou “PESQUISAS EM ARTES CÊNICAS: POR UMA METODOLOGIA EM DEVANEIO” “...À DERIVA”, “...NÔMADE”, “DEVANEANTE”, “...ERRADIA”, “...ANDARILHA”... “...PIRATA”, “...FANTASMA”. Estes títulos eram bem bonitinhos e me tentavam, me tentam. Passam, em verdade, uma ideia quase perfeita do meu empenho aqui. Expressam noções queridas minhas e que podem estar espalhadas pelo artigo, mas não devem, eu acho, aparecer no título. Passam, repito, uma ideia quase perfeita, uma ideia que cheira a um método. O problema está neste “perfeita”. São títulos perfeitos demais, que encerram noções (conceitos?) bastante “redondinhas”. Ou seja, me parecem títulos que, eles mesmos, não estão à deriva, nem em devaneio; não comportam o extravio nem o fantasmal, ao contrário, parece que se cristalizam numa ideia.
Outra possibilidade seria pensar num título em que aparecesse aquilo que chamarei aqui de expressões-devaneios (geografias íntimas, cartografias errantes, territórios existenciais, atlas oníricos, “destinerrâncias” - esta, do Jacques Derrida...), mas aí que está..., cada vez tenho mais resistência - uma verdadeira limitação, uma impossibilidade! (uma birra?) - em apresentar de forma explícita e racional as ideias (?) que me perpassam e que, digamos, subjazem (me assombram, me embasbacam) na minha escrita “acadêmica”.
Portanto, talvez seria melhor deixar aquele título mesmo que eu havia pensado no dia 30/05/19: “ESCRITAS EM TRÂNSITO: deambulagens por uma escrita ainda inexistente”. Mas até este título parece que já não me serve, a despeito da expressão “ainda inexistente”, que tange uma corda que, me parece, está muito perto de voar.
Oba! Chegaram o doce e o café!
O outro livro é uma robusta e completa edição bilíngue da Odisseia, do Homero, tradução do Trajano Vieira, com mapas e tudo. Já tinha lido Odisseia numa edição de bolso, mas agora fiz questão desta aqui, especialmente diante do devaneio de criar uma Disciplina para o curso de teatro; a disciplina se chamaria Escritas em trânsito, inspirado no encontro Rodas de leitura: a conversa infinita.
Dou umas boas garfadas na torta, bebo golinhos do pingado e me lembro que disse para o Marcos, da livraria Via Sapiens, onde comprei os dois livros há uma hora atrás mais ou menos, que iria escrever em algum Café da cidade o meu artigo ensaístico, que a Claudia Zanatta havia me pedido hoje manhã.
14h21: Me disponho a transcrever o áudio-convite da Claudia, mas antes deixo soar nos meus fones: Youth, da banda Daughter. Eu havia falado pro Marcos que ouviria essa banda esta tarde enquanto tomasse um café e lesse trechos dos poemas do T. S. Eliot, “Quando à tarde amadurece um pouco mais na rua / Despertando o apetite da vida em alguns...”, “Se a rua fosse o tempo...”, leio. Leio e me lembro da conversa que tive com o Marcos, umas duas horas atrás, e das anotações que ia fazendo enquanto conversávamos, anotações eivadas de associações que, devaneava, poderiam ser parte do meu artigo ensaístico que pretendia enviar pra Claudia Zanatta. Parte não, anotações que, quem sabe, seriam a mesma “carne” do artigo, sua substância mais íntima. Eis as anotações, incluindo as que fiz quando saí de casa e passei na frente do apartamento em obras em frente do elevador:
Via Sapiens, uma pequena livraria de bairro na rua da República na cidade baixa de POA, brilha com sua iluminação amarelada na manhã chuvosa e escura.........................................A primeira coisa que ouço hoje quando entro na livraria é um cliente dizer: “Marcos, como fica linda essa tua livraria toda iluminada com essa luz amarela vista lá de fora”.......................O Marcos me apresenta a banda Daughter.......................Dou uma folheada num livro de poemas do T. S. Eliot..........................Digo pro Marcos que os poemas do Elliot harmonizam com a música da banda Daughter que toca no computador do Marcos.................................Compro o livro do Eliot, e também Odisseia...........................Perambulo pela lembrança do evento Cartas apátridas, que aconteceu no bar Pinacoteca uns dias antes, nele eu li passagens do meu livro.............Mostro pro Marcos a fotografia do evento onde há um barquinho de papel. E no momento que eu mostro a fotografia pro Marcos me dou conta que o barquinho de papel da imagem foi feito por alguém enquanto eu lia meu texto no Cartas apátridas.................................Livraria Via Sapiens iluminada como os quadros do Edward Hopper..........................Filme do Wim Wenders com o San Shepard, Estrela solitária.............Sam Shepard.............Sam Shepard + Pati Smith se amando em N Yorque.............a poeta Patti Smith escreve Linha M.............Patti Smith......................................Paterson (filme do Jim Jarmusch com poemas do Ron Padgett)..........................................Paris,Texas (também do Wenders, roteiro do Sam Shepard).......................................As poetas do islam e do freestyle.............Suze e Mika (pedra engastada em pedra / joia em joia) e suas rimas que tentam arrebatar o aqui e o agora das asas do tempo. Natália Pagot e o seu instinto e clamores igualmente alados..............................................Meu itinerário (padaria Armazém 47, daí pra livraria, e depois pegar a comida no Dona Laura, levar a comida pra casa e ir pro Café do MARGS. E parece que, hoje, tudo debaixo de chuva).............Minhas coordenadas por esta cidade..........................................................Um pedreiro ouve no rádio “Debaixo dos caracóis...” que dizem que Roberto fez pro Caetano no exílio..........Que me faz lembrar: “É agora, que faço da minha vida sem você...” (com o Fernando Mendes, claro)...E daí pra Peninha, de “Tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo...” é um pulinho...e desembarco em “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, filme do Karim Aïnouz.......................................................................................................................................... “Todo pensamento emite um Lance de Dados” (Mallarmé)....................
14h59: Acabo de vez com a torta de maçã e o pingado que já tava frio (tudo ao som do álbum in The Dark Woods, do Akira Kosemura, e pitadas do Eliot: “Abril é o mais cruel dos meses, criando / Lilases na terra morta, mesclando : Memória e desejo, atiçando / Raízes tardas com chuvas de primavera.”),
e eis o áudio convite da Claudia:
“Mesac, bom dia, querido. Tudo bom? É... entro em contato pelo seguinte: a gente tá fechando é... um número de uma revista... é a revista da pós-graduação, a Contemporânea, lá de Santa Maria, e aí eu queria ver contigo se tu te animas ou teria vontade de escrever a partir do que foi a tua fala lá na Rodas de leitura vinculada à questão da metodologia e tal né... escrever um artigo, pode ser pequeno, com imagens e tal e sobre... o hmm... o que foi conversado... não é tanto sobre o que foi conversado, é como tu pensas essa questão da metodologia, o tema da metodologia é... em artes cênicas, não é... Aí a gente tem um prazo aí, eu vou verificar qual é, mas ah... de repente seria assim bem legal a gente ter isso também mais sistematizado em uma escrita ali de algum modo como uma introdução, não significa que não possa ter o modo como é o livro né, mas, entende, pra os alunos poderem usar também como subsídio a partir de uma referência escrita, de um artigo. Ah... to só pensando aqui. Me avisa então. Um beijo”
15h53: É isso. Esse é o meu “artigo ensaístico”. Pagarei a conta e irei pra casa.
31/05/19
07h51: Armazém 47, café da manhã, antes de ir ao Hospital psiquiátrico São Pedro com os estudantes de teatro para encontros teatrais. Releio o pretenso artigo que escrevi ontem para a Claudia e me dou conta que ele pode não atender ao que ela me pediu. Na verdade, eu já sabia disso ontem ao escrever. Não sei mais escrever um artigo, digamos, convencional, acadêmico, sistemático. Não é que eu me recuse, é que eu não sei mais mesmo, como uma limitação que se apoderou de mim. Quando escrevi o livro Metodologias de pesquisa em artes cênicas: um romance - fotos com uma Zenit Polar russa, eu já fora acometido por esta “enfermidade”: a impossibilidade de escrever algo que não seja esse arrojo obsessivo e fracassado de tentar capturar o momento da escrita no mesmo momento em que escrevo. 08h08: Mas esse tempo se esgota, não posso comer e escrever. Ainda mais que hoje faremos um cortejo pelas alas do hospital, e ainda tenho que passar em casa pegar a daburka. Quando me arrojo assim no fluxo inexorável da escrita... é como se eu estivesse tomado, possuído. Pelo quê? Não sei. Pela linguagem?
Talvez esperem de mim algum tipo de teoria sobre uma metodologia. Eu não a tenho.
08h17: Tenho que ir. Mas antes abro o livro do Eliot por acaso: “Zé vive lá na Entrada do Teatro /... Seu pelo é bem ralo, ele é magro e esquelético / Numa pata ele sofre um tremor frenético”.
08h22: Vou. (Dessa vez nem pus trilha sonora nos ouvidos)
12h30: No Café da República, Rua da República, 358, na Cidade Baixa, peço um capuccino com Nutella e procuro a trilha sonora de Estrela Solitária, do Wim Wenders, no YouTube; acho somente aquela bonita cena musical folk num bar da cidadezinha perdida no Oeste. Não era o que procurava. Então ponho pra tocar a trilha de Paris, Texas, do Ry Cooder, “baixada” do Spotify, minha velha conhecida. Lembro-me dos rostos e corpos no hospital psiquiátrico..., da alegria momentânea de alguns olhares cintilantes quando passamos cantando Sonho meu, Sonho meu, vai buscar quem mora longe... A canção da Dona Ivone Lara ecoando pelos corredores antigos. Aqueles olhos e corpos e sorrisos tão perto de nós e, ao mesmo tempo, tão longe. Um homem pede a nossa gaita, outro, a meia-lua..., e o cortejo continua continua continua...
14h05: Agora, este silêncio
[14 de junho de 2019
Enviei ontem o texto pra Claudia Zanatta. Ela respondeu assim o meu e-mail:
“Bom dia! Gostei! Ficou um texto meio partitura. É possível fazer uma leitura "de ouvido", escutando as músicas.
E o embate com o título também achei bom. Porque ficou uma busca por um modo de dizer que permitisse uma entrada para um tipo de escrita que estava buscando seu próprio modo de dizer, hehe.
E a foto tá bárbara:)
Vou encaminhar.
bj e obrigada!
*A partir desse texto fiquei pensando na palavra artigo. Ela não me desagrada totalmente (como palavra).”
A resposta da Claudia me fez devanear, especialmente o P.S. com asterisco. Talvez, por fim, eu tenha encontrado o meu artigo! - no sentido de quem entra numa loja, num daqueles antigos “armarinhos”... e pede... um artigo -. Talvez eu tenha encontrado o meu artigo, não na linda e iluminada vitrine, mas sim meio que empoeirado e esquecido num rincão qualquer no fundo da pequena livraria de bairro.]
GLOSSOLALIA: falar língua falar em línguas
CANTO 1
PREÂMBULO (no bar na rua da República).
Abro um tinto no bar Pinacoteca na Cidade Baixa Um tinto que abro umas duas vezes por semana naquele bar E leio muita poesia cada vez que abro um tinto (e também tento escrever alguma poesia) Dessa vez abro um tinto e leio COM O ESPÍRITO DAS COISAS DENTRO do poeta de Minas Ricardo Aleixo Destaco o verso "Fez-se homem o Espírito das Coisas
e desatou a falar
uma língua linguagem estranha"
E decido incorporar isso que ele escreve e o que escrevo agora
na minha fala do Simpósio da semana que vem sobre a Glossolalia
E o poema do Aleixo começa e termina assim "Piedade criou o griot, e é por ela que ele ainda vive"
Isso não é uma palestra
sim um poema
um poema dedicado a duas mulheres
ou melhor
ao gozo dessas duas mulheres
aos seus gloriosos e frementes orgasmos!
que eu pude presenciar
(ou induzir...?)
Não não induzir não...
Gozos daquela enormidade!
certamente o meu papel foi pífio ou nenhum
naqueles colossos orgásmicos...
Talvez possa apenas homenageá-los
- nem isso
E eram Gozos acompanhados de glossolalia
Elas falavam em línguas enquanto gozavam
Língua estranha
Língua dos anjos
...
Pois lá vai o poema
(aliás, ele já está indo)
Glossolalia:
pós produção de sentido que se atualiza incessantemente
Randômica Um espectro do simulacro do espectro do simulacro do espectro do simulacro do espectro do simulacro... até o infinito
Mas um pouco antes do infinito
na sua borda (ou até entornando um pouco desse infinito pra dentro da linguagem...) se faz carne
carne derramada
...Gozo
Cito a poeta Annita Costa Malufe:
“esse é o ponto em que a linguagem falha
o ponto em que as estrelas falam
o insondável silêncio entre uma estrela e outra
o insondável silêncio entre uma estrela e outra
posso ouvir agora”
Epifanias glossolálicas
GLOSSOLALIA: Nevoeiros de uma língua ou uma língua nevoenta
Língua DESMESURADA... ESCÂNDALO!
Excesso
Desperdício
Língua ASSOMBROSA... ASSOMBRANTE!
“A meio caminhar de nossa vida fui me encontrar com uma selva escura” (Dante, Inferno)
CANTO 2
DEÂMBULO (saio do bar e rumo pela rua da República sentido João Pessoa, uma chuvinha fina e gelada me acompanha. Pouca iluminação, árvores altas)
A primeira coisa depois de receber o convite do Raimundo Rajobac
para falar aqui
foi me lembrar da poesia
E logo segui para a glossolalia
Não sei dizer qual a relação entre a duas que me moveu ou comoveu
Mas foi esse o meu trajeto meu vagar que me conduziu a passos lentos
da poesia aaaaaaaaaaa glossolalia
Não falarei aqui dessa relação - desse conúbio - entre poesia e glossolalia
Não
Falarei apenas da glossolalia
Mas quero deixar a imagem dessa ligação
dessa re li ga ção (religare)
desses passos lentos
num bosque de outono
Mata densa espessa... spessssssssssssa
A esssspessssura de uma floresta
(talvez a mesma floresta em que se reuniam orgiacamente as Bacas...)
Foi na biblioteca do Principado de Andorra
entre bosques espessos de pinheiros
que li um texto sobre a glossolalia
Um texto do Octávio Paz
Eu estava lendo em paz Octávio Paz na nova biblioteca de Andorra la Vella capital do principado de Andorra Biblioteca feita toda de pedras escuras pedras antigas (óbvio: as pedras geralmente o são) mas cortadas e transportadas pra lá recentemente E estava eu lendo em paz o texto do Octávio quando os policiais entraram Eram dois e vestiam verde e não vi Paz nos seus olhos E me cercaram e me levaram dali Eles estavam procurando um cara como eu
porque um cara como eu com toda pinta de estrangeiro foi visto fumando maconha na praça (Plaça del Poble) Desde essa Praça do povo seguiam buscando uma cara com pinta de estrangeiro que foi visto fumando maconha em público Quem buscavam não era eu mas se parecia comigo por isso me levaram Um tipo estranho como eu Que na certa devia falar uma língua estranha
Deixei pacificamente sobre a mesa da biblioteca o livro com o texto do mexicano Octávio Paz sobre a língua estranha e segui com os policiais
Mas este texto é sobre a glossolalia e sua carência de sentido
Uma presença plena de ausências ou uma ausência plena de presenças
As primeiras igrejas cristãs se encheram das mulheres que viviam ou haviam vivido nos Lupanares de Corinto Daí que o Paulo (o apóstolo) brada
mulheres devem estar caladas na Igreja!
(“Conservem as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar” 1 Coríntios 14:34)
O gozo dessas bacas não cabia na eclésia
não se adaptavam à koinonia
a Koinonia não as suportava
Falando em suporte Suporte da língua Derrida trama o subjétil enlouquecido (onde inclusive evoca Artaud e a glossolalia)
Nas selvas amazônicas também grupos humanos epifanam a glosolalia
(porque a glossolalia não se fala Ela se manifesta... Ela E pi fa na )
Uma língua insuficiente ao mesmo tempo
murmúrio e urro uma renúncia e afirmação
Uma língua aniquilada que aniquila Que uma vez que resiste... sucumbe
E resiste porque sucumbe porque desconcerta
Insana furiosa aniquiladora língua de fogo no Pentecostes
Ruído que fermenta a língua
Antilíngua que fecunda a língua
(ou a faz adoecer... febril) aquém e além da língua
Glossolalia: uma devoradora de línguas
Ataca diretamente na jugular do verbo na sua articulação
Ou talvez
na glossolalia
sobrem apenas a articulações
o Entre da língua
a língua do Entre
Essa zona sombria limiar lugar perigoso
(onde o verbo se transubstancia?)
CANTO 3
PERÂMBULO (dobro à esquerda na João Pessoa e atravesso o viaduto sobre a Perimetral, continua chovendo fininho e faz frio; atravesso o viaduto rumo ao centro histórico)
Durante algumas décadas
este que vos fala frequentou rituais de uma seita
Foi lá que na minha adolescência eu me deparei estupefato com a manifestação da glossolalia: eu mesmo falei em línguas
Uma língua perplexa
plena de degenerescências e decrepitudes de absurdidades
Talvez...esvoaçante
Segundo Wallace Stevens comentado por Augusto de Campos
“mesmo as coisas esvoaçantes têm uma sombra nítida...” É isso uma sombra da língua A fulgurante epifania de uma quase língua
Ambígua dúbia desviante inusitada sibilina desmesurada.
DESMESURADA!
Urro de escândalos na Eclésia de Corinto!
Matéria informe da língua resquícios restos cinzas da língua
Uma língua vacilante Beiradas da língua Estilhaços da linguagem
Uma língua alvoroçada excitada que se derrama escorre
La da inha
Náufraga Encalhada Afogueada Incendiada Crestada
Em chamas!
Uma língua convulsa assolada agonística em transe
Também uma espécie de penúria de sentido
talvez por excesso dos... sentidos
O sol que ilumina e esconde... ofusca
Perambulando pelas fronteiras desta "impossível possibilidade que é a linguagem"
(Achille Mbembe filósofo africano e africanista camaronês citando Foucault)
A impotência de dizer o sentido do que digo
"A linguagem só fala a partir de uma falta que lhe é essencial"
(Achile Mbembe desta vez citando Deleuze)
Uma epígrafe com Deleuze em Como se caísse devagar,
livro de poemas de Annita Costa Malufe "que o sentido seja o que se cala na palavra"
Foda!
A glossolalia seria assim o paradoxo do silêncio audível!
Som regozijado Do gozo! Verbo que se faz carne
Carne que estremece ...em ebulição
Que Lugar era Aquele a Partir do Qual o Autor Deste Texto Viu a Mostra DAD 2014/2 e Falou Sobre Ela?*
(Mesac Silveira)
Resumo: Este ensaio quer captar a experiência passional do autor deste texto ao escrever sobre o teatro contemporâneo e como essa experiência se mescla com o próprio ato da escrita. A experiência de escrever sobre o teatro atual seria então um lugar privilegiado para pensarmos o teatro no seio da própria experiência da escrita, e a escrita impregnada do fazer teatral. Palavras-chave: teatro contemporâneo - subjetividade - experiência escrita
*Mostra de teatro do Departamento de Arte Dramática do Instituto de Artes da UFRGS, no segundo semestre de 2014 onde são apresentados os estágios de atuação e montagem. A Mostra inclui o Painel de Licenciatura onde os alunos de Licenciatura em teatro apresentam seus Trabalhos de Conclusão de Curso.
**Mesac Roberto Silveira Jr. Professor adjunto e chefe do Departamento de Arte Dramática do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pós-doutor pela Université de Paris V. E-mail: mesacjr@gmail.com
“Sou como aqueles que voltando de uma longuíssima viagem (para fora de tudo, da terra, do mundo, dos homens e das suas línguas), tentam manter a posteriori um diário de bordo, com os instrumentos esquecidos, fragmentários, rudimentares, de uma língua e uma escrita pré-históricas. Compreender o que aconteceu e explicá-lo com pedras, pedaços de madeira, gestos de surdo-mudo..., um tatear. E eles vão reconstituir-se com isso. Se soubessem, teriam medo e sequer tentariam.” (DERRIDA)
“Quem escreve? Para quem? E para enviar, destinar, expedir o quê? A que endereço? ... Devo, pelo que me sobra de honestidade, dizer que finalmente não sei. Vocês poderiam ler esses envios como o prefácio de um livro que eu não escrevi.” (DERRIDA)
“A expressão de que não há nada a expressar, nada com que expressar, nada a partir do que expressar, nenhuma possibilidade de expressar, nenhum desejo de expressar, aliado à obrigação de expressar.” (BECKETT)
“Seria a autoridade de uma variação perpétua, por oposição ao poder ou ao despotismo do invariante. Seria a autoridade, a autonomia do gago, daquele que conquistou o direito de gaguejar, por oposição ao “falar bem” maior.[...] É preciso que a própria variação não deixe de variar, quer dizer, que ela passe efetivamente por novos caminhos sempre inesperados.” (DELEUZE)
Que lugar era aquele a partir do qual o autor deste texto viu a Mostra DAD 2014/2 e falou sobre ela? Resposta: a paixão. O lugar era a paixão. Lugar instável, rarefeito, desconfortável e repleto de incertezas de onde o autor deste texto viu o que aconteceu naquelas tardes e noites nas dependências do Departamento de Artes Dramáticas. E o que aconteceu lá, também aconteceu nele. Foi ele também o próprio lugar de onde experenciou tudo lá: lá o autor deste texto aconteceu. O lá era o lugar possível do seu acontecer. O autor deste texto era o lugar, era a paixão e era também o que ele via. Havia uma confusão de tudo isso na cabeça do autor deste texto. Embora ele se esforçasse para não haver tal confusão; ele não queria essa mistura entre ele, o que ele via e de onde via. A paixão exige essa separação. O autor deste texto queria fantasiar como um apaixonado que acredita que existe o objeto da sua paixão. O apaixonado idealiza, inventa o seu objeto, e se inventa nele, porém tenta se ausentar desse processo, cegar-se a ele. O autor deste texto queria lá, mais que nunca, separar o que era sentido do como era sentido, e de onde era sentido. O pensamento mais difícil não deveria fazer essa separação. Mas o autor deste texto não queria o pensamento mais difícil. Ele apenas desejava flertar, não pensar. Portanto, naqueles dias o autor deste texto flertara com a Mostra. Suspirando, ele a vira, ouvira, sentira os espetáculos e o painel no qual foram apresentados os trabalhos de conclusão de curso igualmente espetaculares. Fizera tudo isso este autor, e agora, passado um tempo, se dispunha a escrever sobre essa sua experiência, de articular o impensável, de pensar os abismos da paixão. E o encontramos ali sentado diante de uma xícara de café, conversando sobre essa sua intenção com uma amiga. Sei que dúvidas o atormentam: será que passou tempo suficiente para que ele possa falar dessa sua paixão? Algum dia haverá passado tempo o bastante para que ele se distancie o suficiente para falar dessa sua paixão? Se esse dia chegar, não haverá a paixão então desaparecido e qualquer fala sobre ela será vazia e fria..., científica? 06 de janeiro de 2015Bebo um café expresso num dos Cafés do centro de Porto Alegre. Converso com uma amiga sobre a minha pretensão de escrever um ensaio sobre as razões da minha paixão por tudo que assisti na Mostra DAD 2014/2 nessas últimas semanas. Sei da minha contradição: como escrever algo lógico, articulado, racional sobre uma paixão, se é justamente a paixão um estado alterado em que a razão brilha por sua ausência? Se a paixão é um delírio, quase um surto, algo embriagador, como posso torná-la objeto de um pensar objetivo? Confesso à minha amiga a necessidade que sinto de escrever algo sobre os motivos da minha paixão, uma espécie de declaração de amor em forma de ensaio, mas não sei se conseguirei.
Revista Cena n. 17
DESTINERRANDO NELA
qual o momento, onde, como e por que nasce a minha leitura da tua escrita?
Não te leio - leio a partir de ti - em ti - desde teus acenos
ao te ler, não apenas estou viajando contigo, mas viajando em ti. Percorrendo as reentrâncias dos teus mapas, me perdendo em tuas destinerrâncias, deste teu corpo que me habita, me impregna com teus vestígios, teus rastros, tuas ausências...
assim, me extravio em ti enquanto te leio (me perco nos teus “MAPAS DE POSSÍVEIS CAMINHOS”, nos teus rascunhos e rasuras, mapas/corpo, mapas talhados em pele... a tua).
talvez jamais me reencontre depois desta singradura, (deste naufrágio?). Porque ler-te é uma experiência que me arroja para além da escrita, nas águas turbulentas das regiões atópicas, dos não lugares, dos lugares estranhos, “IMPERMANENTES”, perigosos.
a tua escrita não é um convite, é uma exortação, um imperativo: vem! Você me exorta a vir inteiro a ti. fazes da escrita, pele, sangue, secreção, algo que se derrama, que escorre... sortudos daquelas e daqueles que podem sofrer o contágio pregnante das tuas “REVERBERAÇÕES”, da textura e espessura da tua vibração, dos rastros que deixas, daquilo que exalas. para viajar em ti há que agudizar todos os sentidos e saber perder-se, porque teu imperativo é uma sedução ao extravio e à vertigem - ao abismo.
Gracias!
o rastro é uma não estrutura.
eu só poderia fazer uma coisa com a sua escritura/corpo: deixar que ela me roçasse, copulasse comigo, me sujasse e... de aí me remetesse a um algo que ainda não é e que ainda não sei e nem saberei.
“COMO? COMO? COMO? COMO?”
NORMAS PARA UM TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO EM ARTES CÊNICAS - UM POEMA
Muitas vezes estudantes me perguntam:
Mas posso escrever qualquer coisa?
Respondo: pode
Mas tudo vale, professor?
Tudo
Um Trabalho de Conclusão de Curso poema, pode?
Pode
Um TCC carta?
Pode
Um TCC drama?
Pode
Um TCC romance?
Pode
Um TCC canção?
Pode
Um TCC vídeo?
Pode
Um TCC performance?
Um TCC playlist?
Um TCC stories?
Pode
Pode
Pode
Conversas do whats?
Pode
Fanzine?
Pode
Aula?
Pode
Dança?
Pode
Um TCC incompreensível?
Pode
Completamente em branco?
Pode
Inexistente?
Pode (e penso: desde que você vá às últimas consequências. Penso mas não digo)
Tudo acima misturado?
Pode Pode Pode Pode Pode Pode...
(Ah!... pode até seguindo as normas da ABNT e as regras da academia?
Às vezes pode hehe)
Acho que vou mudar o título deste poema para CONFIANÇA
PÓS-AMBULAGEM (SE É QUE ELA EXISTE)
Lembro-me da flor descrita por Roland Barthes: “aquilo que, presente, vai no entanto morrer…, deve… morrer: É aquela nuance do Ma japonês, ‘Utsuroi’, a flor… que vai passar… o momento em que a flor vai murchar [mas, imediatamente, ainda não murchou], em que a alma de uma coisa está como que suspensa no vazio, entre dois estados.”






